29 de julho de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 7


CAPÍTULO II

Quando entrou em casa, na saleta habitual dos serões, o barão proferiu, no tom frio e breve de quem se desobriga de um dever banal: — Boa noite, Vivi; — enquanto deixava cair maquinalmente um beijo nos crespos eriçados sobre a testa pequenina da baronesa, que lia com interesse Madame Bovary. Depois, logo a seguir, afundou-se pesadamente na macieza de um fauteuil.
— Boa noite... Então que tal? — retorquiu a baronesa, erguendo indolente os olhos do livro e sorrindo para o marido com uma indiferença amável.
— Uma sensaboria... Não volto lá tão cedo. Bem fizeste tu em preferir àquela palhaçada tão vista o conchego da tua casinha e a companhia leal dos teus livros.
— Ah! e então que livro, este!.... — exclamou a baronesa num profundo acento admirativo, retomando com delícia a leitura interrompida.
— Gostas?
— Nunca li nada que me tocasse tanto! — E enovelou-se toda na cabeceira da chaise-longue, uma das pernas dobrada, colhida graciosamente sob o tronco, num gesto friorento de avezita; as mãos sobre o regaço, preguiçosas, deixando os dedos jogar distraidamente com os anéis; as pupilas traçando num vaivém rápido o paralelismo das linhas que iam devorando no livro, poisado sobre uma mesinha baixa de charão.
 Sabes tu quem eu vi?... — tornou o barão, querendo armar conversa. — Os Paradelas.
Porém a baronesa, cortando logo:
— Sim, sim, mas deixa-me ler.

O gás estava apagado. Apenas alumiava a saleta um alto candeeiro de bomba, de bronze esmaltado, estilo bizantino, com o globo fosco vestido por um para-luz tenuíssimo de papel-japão. Estava sobre a mesinha, junto ao livro, vertendo em torno um cone muito restrito de luz. O maior do aposento, — aguarelas, chinesices, faianças ornando as paredes; fotografias, revistas ilustradas, álbuns, quinquilharias galantes abarbando os consolos, as estantes polidas a negro, o contador embrechado; móveis esparsos numa desordem estudada, o piano, flores, porcelanas caras, — mergulhava tudo discretamente na penumbra, tinha os contornos adormecidos num claro-escuro de pacificação e castidade. Só àquele cantinho morno e preferido, entre o biombo e a parede, na incidência próxima do candeeiro, realçavam, numa claridade repousada e honesta de interior de Gerard Dou ou de Van Eyck, um trecho da alcatifa, curvo e afilado como um crescente, o espelhamento opalino de um velho prato suspenso da parede, um ou outro avoejo exótico de laca e oiro no verniz da mesinha acharoada, e a viva mancha adorável da cabecita pequena e redonda da baronesa.

Era um desses tipos de mulher delicados, miudinhos, frágeis, picantes à força de subtilização e de nervos, que apetece à gente ao mesmo tempo contrariar e amar servilmente, acariciar e destruir. Uma figurinha de Saxe, luminosa e frívola. Os olhos, grandes, entre o cinzento e o verde, um tudo-nada metálicos, tinham uma translucidez enxuta, saudável, forte, que raro, num trémulo conchegar de pálpebras, humedecia um espasmo breve de volúpia; o nariz, impercetível, fino, erguia-se na base em arrebite, num leve jeito provocante, entre malicioso e altivo; na testa, desanuviada, lisa, pequenina, não havia notícia da passagem de um pensamento grave, de um minuto reflexivo, de uma justa noção do Dever; e pela curva da face, de uma alvura crassa de leite, subia de cada lado, do mento às fontes, a sinuosidade azul de uma veia tenuíssima.

Um conjunto fascinante de mocidade e graça, de petulância e mimo.

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