18 de agosto de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 8


O barão, fatigado, arreliado, quente, o coração palpitando forte, e o cérebro e as mãos a arder, saboreava um alívio e uma doçura imensa na tranquilidade muda do recinto. Mal apaziguado ainda das tumultuárias emoções da noite, o remanso dormente da sua casinha embalava-lhe a carne estimulada numa acalmação voluptuosa e emoliente de banho a 33 graus. Mas não era bastante; se os sentidos se lhe normalizavam, a alma continuava estrebuchando numa exaltação dolorida. O silêncio exasperava-o. Queria um derivativo psíquico, uma mutuação qualquer de ideias, o bálsamo de um comércio espiritual, sincero, íntimo, todo afabilidade e abandono.

Por isso aventurou para a baronesa, numa súplica impertinente:
— Então, não me dizes nada?... Deixa agora o livro. 
Ao que ela, contrariada, sem desfitar da leitura:
— Ora, muito obrigada. Não andaste por lá sem mim, entretido até agora?... Pois deixa-me ler.
E a boca vincava-se-lhe aos cantos, muito acre, e as veiazitas da face coravam-se-lhe de roxo, ligeiramente engrossadas.

Portanto, o silêncio pesou novamente, esmagador, absoluto, na quietação implacável da saleta. Ao seu cantinho predileto, enovelada sobre a chaise-longue, a baronesa não despegava de ler. Guardava-a do ar da porta próxima que, do lado da cabeceira, dava para o quarto de toilette, um alto biombo de preço, com os seus cinco panos, de cetim preto, sobriamente bordados de aves pernaltas, gramíneas capilares e florinhas ténues, em matizes de um realce maravilhoso, em desenhos da mais solta e delicada fantasia. Do lado da cauda, a chaise-longue entestava com uma parede toda lisa, no sentido do comprimento da casa, tendo um grande espelho doirado ao centro; distribuídos em volta, na mais harmoniosa das desordens, quadros, suspensões, bugigangas, velhas porcelanas; encostadas, duas estantes com livros; e, em ângulo contra o extremo oposto, um piano de cauda sobre um estrado. Era uma parede interior.

Seguia-se-lhe outra mais pequena, adornada também de quadros e com uma porta fronteira à do quarto de toilette, dando para o gabinete de trabalho do barão. Esta porta era flanqueada por duas grandes colunas torcidas de pau-preto, farfalhudas de parras, de cachos, de anjos em regueifas, com dois vasos de Perusia ao alto, desgastados, sem brilho, granulosos, de um estilo puríssimo e de uma lendária antiguidade; e às duas porções laterais da parede dois magníficos consolos encostavam, abarbados de coisinhas preciosas, — pagodes de marfim filigranado, retratos queridos em molduras de pelúcia, miniaturas de esmalte, bronzes, conchas, lacas, cinzeiros de malachite.

Depois, paralela à parede lisa interior, havia a exterior correspondente, com duas amplas sacadas dando sobre o jardim. No intervalo destas, ressaltava um contador índia embrechado, de pernas oblíquas, lineares, singelíssimas, todo atropelado na severa amarelidão da sua teca por correrias de monstrosinhos de ébano, rasteiros, ventrudos, rabiosos, a cauda em ponta de dardo, a língua a sair num jato da goela a escâncaras, o olho de marfim, branco e redondo. Para cima, vestia a parede um espelho esguio, de moldura de ébano, biselado.

Aos dois cantos, para lá das sacadas, a folhagem glabra e tenra de dois philodendrons naturais espadanava em leques luxuriantes de grossos vasos de faiança do Rato, postos sobre velhos tamboretes persas, de cedro e madrepérola. Nos reposteiros, feitos de bourrette espessa cor de madeira e oiro, sinuosava também um desenho persa complicado. Sobre os vãos das sacadas, a temperar a luz externa, desciam muito sobrepostas, orlando a bourrette interior, cortinas finíssimas de tule creme com aplicações a branco. Junto da porta do toilette, um pouco à frente, um cavalete vieux chéne sustinha, meio afofada nas pregas de uma colcha secular da Índia, uma tela, assinada Lupi, com um retrato em busto da baronesa. E por baixo do grande espelho doirado espreguiçava-se um largo sofá de pelúcia de linho azul-escuro, esquadrado em volta por uma tira de seda cor de oiro velho, e tendo a um lado, erguida nas mãos sobre a espalda cilíndrica, uma figura minúscula de mandarim, escarolada e risonha, posta graciosamente a espreitar.

Meia dúzia de móveis mais, arrastando ao acaso na alcatifa, cujo tom sanguíneo dava um destaque vivo de petulância à cor tranquila do recinto. No papel cinzento-adamascado das paredes alisavam-se lampejos de aço, esbatidamente. Do teto branco de estuque um lustre pendia, de bronze. Saboreava-se a quintessência do conforto e do agasalho naquele ninho mimado de elegância. E todavia o barão estava mal, sentia frio. Era tão flagrante, tão profunda a discordância entre a brutalidade animal dos seus instintos e a doce quietação, o familiar abandono, a feminina graça de tudo quanto o rodeava, que, agora, dissipada a primeira grata impressão da entrada, aquela pacificação hostilizava-o, arreliava-o, dava-lhe toda branca, em cheio, nas turbulências sinistras da sua alma doente, e fazia-o sofrer.

Ergueu-se de chofre e começou a passear. Então a baronesa, breve: — Tens aí os jornais para ler.
O barão, maquinalmente, veio sentar-se de novo, junto da luz, no mesmo fauteuil, e procurou ler a Gazeta de Portugal, em que colaborava.

E assim, na mudez discreta da noite, na voluptuosa penumbra da saleta, aqueles dois esposos, na aparência tão próximos, ambos novos, ambos amantados na carícia do mesmo ambiente perfumado e morno, obstinavam-se longe, muito longe um do outro; ele galopando o destrambelhamento do seu vício; ela deliciando a imaginação e envenenando os sentidos na tragédia dissolvente de Madame Bovary.

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