6 de março de 2013

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 11


No barão de Lavos confluíam poderosamente as qualidades todas do pederasta. Quando tinha dez anos, entrou para o colégio de Campolide. Seu pai, velho cortesão cheio de tédio e de dívidas, viúvo, refarto de alçapremar traições num sorriso, de farricocar o ódio em graciosas mesuras, de espremer a bolsa em proveito de parentes e caloteiros, resolvera sair de Lisboa, descansar, fugir aos prazeres, à intriga, ao mundo que conhecia de sobra. Foi-se para Lavos, onde possuía excelentes propriedades em salinas, campos e florestas, a refazer a fortuna e a endireitar a espinha. O filho, entregue à douta proteção dos jesuítas, no seu ponto de vista, ficava bem. Por ocasião das férias, acolhia-o com alvoroço, retinha-o com amor, dava-se a estudar-lhe interessadamente os progressos na educação. O rapaz era inteligente, amigo do estudo, — mesmo talentoso, — arriscavam-lhe confidencialmente, em breves períodos lardeados de reticências, os astutos precetores. — E dava-lhes cuidado, — acrescentavam receosos, — regurgitava de seiva, precisava ser dominado de princípio, aliás corria o risco de se perder.

Mais de uma vez, por noite alta, os prefeitos haviam surpreendido o menino fora da cama, abancado à mesa, a face colada a uma luz asfixiante de petróleo, fumosa e lívida, todo numa febre de improviso, a fronte camarinhada, o olhar ardente, a mão trotando no papel, a fazer versos profanos. — Tinham-no castigado, — estivesse descansado.

A verdade é que D. Sebastião saíra uma organização privilegiada de artista. A uma retina infalível no apanhar o lado belo das coisas juntava uma larga capacidade imaginativa, uma acuidade dilacerante do sentimento plástico e um poder veemente de expressão. Com o penujar da adolescência veio-lhe o impulso de verter nos companheiros as demasias da sua alma generosa e ávida. Amou alguns dos colegiais que lhe orçavam pela idade. Foi excessivo. Destas cenazinhas adoravelmente ridículas, que são triviais nos colégios, — trocas de solilóquios inflamados, cartas, exorações, amuos, rancores, ciúmes, pugilatos, ensaios precipitados de cópula no palmo quadrado das latrinas, — de tudo teve o futuro barão num grau exagerado e quente, a que a sua compleição débil e requintada vestia o máximo colorido. Quando o seu desejo se concentrava, inconfessado, tímido, ardente na pessoa de um colega a quem por qualquer circunstância ele não podia ou não resolvia declarar-se, então o desgraçado sofria insónias horrorosas, durante horas e horas intermináveis, de costas na cama, a narina aflante, a pálpebra leve, os olhos arregalados para o teto na escuridão cava da noite, os dentes rangendo rápido e o corpo todo vibrante no arrepio de uma crise nervosa fatal, obsessiva.

Quase sempre uma evacuação seminal, provocada por ele próprio, ou, as mais das vezes involuntária, e determinada sem prazer, por uma irritação quase dolorosa, punha termo, no quebramento cortado de sobressaltos da madrugada, a este estado cru de excitação. Depois, pelo dia adiante, era o mau humor, a mudez, as olheiras lustradas de roxo, um pouco de dispneia, o refúgio no isolamento, a repugnância ao estudo, o adormecer nas aulas.

Uma vez, um colegial, que ele amava imenso, disse-lhe por fim que sim, que estava pronto a corresponder-lhe, mas por forma que ninguém soubesse, e então — que fosse de noite ter com ele à cela. Combinado. O Sebastião deitou-se e esperou, todo a tremer, sem poder conciliar o sono, que o seu relógio marcasse as duas da manhã. Então levantou-se, abriu a porta da cela, aventurou um olhar de lince a todo o comprimento do longo corredor deserto, e saiu, cosido à parede, sorrateiro, os pés tartameleando perros no tijolo... Quando, passada uma hora, regressava ao quarto, pilhou-o a lanterna do prefeito de ronda. Foi castigado rudemente. Nem por isso deixou de continuar.

Aos dezasseis anos, saía do colégio para a vida exterior com as propensões viciosas pioradas. Alto, esgalgado, seco, — ardia-lhe na cintilação febril dos grandes olhos negros o furor perpétuo, mordente, insaciável do Desconhecido; e a cada um destes incêndios ferozes da pupila correspondia instintivamente um abrir das mãos descarnadas e um trémulo agitar dos dedos, nervoso, inflamado, adunco, uma como ânsia de apalpar a Vida. Conformação feminina: — cabeça pequena, ombros estreitos e descaídos, bacia ampla, rins muito elásticos, pés metendo para dentro. O rosto, de um alvo rosado lanugento e macio, tinha uma expressão menineira e ingénua, um ar tocante de fragilidade e doçura. Mas não inspirava simpatia; traía-lhe a inconsistência do carácter a linha apagada, miúda das feições. O olhar era deordinário baixo; não cruzava com firmeza; e sempre que sentia um outro olhar ainterrogá-lo fito, as pálpebras desciam logo, a garantir-lhe a inviolabilidadedo abismo.

Quis estudar mais. Continuou em Lisboa, cursando a Politécnica. No intervalo das aulas, ia pelas bibliotecas ou amarfanhava-se em casa, lendo tudo quanto podia apanhar. À medida que se lhe desdobrava o espírito, definia-se, afirmava-se-lhe a característica, roboravam-se-lhe as predileções plásticas, a qualidade sensorial dominante. No modalismo da natureza interessava-o principalmente o sensível, o tangível, a face pagã, material das coisas. Por isso, a despeito do seu fundo etiológico de pederasta, cultivava com frequência as mulheres. Mesmo entre uma mulher bonita e um efebo atraente, não hesitava: preferia geralmente a mulher. Procurava sempre e acima de tudo a linha, a forma, a beleza emocional aparente, quer fosse num seio virgem, quer num músculo bem fibrinado, quer num cristal perfeito, quer numa florinha delicada, num trecho vivo de paisagem, num encastelamento de nuvens fugidio.

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