6 de março de 2013

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 12


Quando contou vinte anos, rogou ao pai que lhe permitisse fazer uma viagem ao estrangeiro. Concedido. E o rapaz partiu, trépido de entusiasmo. De Madrid seguiu a Paris; depois visitou a Itália. Nesse afortunado passeio pelas civilizações irmãs da nossa, tudo quanto respeitava à Arte constituiu a melhor porção do seu estudo. O maior do tempo gastou-o no interior dos velhos monumentos, nos museus, nas coleções particulares, nos bazares exóticos, nas lojas de bric-à-brac. E aí, na religiosa paz desses salões consagrados, que horas de sublimado gozo, de contemplação inefável! Estátuas e quadros que figurassem a nu belos corpos de adolescentes, estonteavam-no. Trouxe-o doente da mais cega paixão, dias seguidos, o célebre Antínoo descoberto em Roma no século XVI, no bairro Esquilino, que ocupa hoje no belvedere do Vaticano um gabinete especial, e é das melhores obras da antiguidade que o tempo nos poupou. Maior que o natural, deslumbrante na lisa alvura do mármore, ele inclina a cabeça levemente e dealba no sorriso uma expressão graciosa e fina, que faz um contraste adorável com a vigorosa envergadura do arcaboiço. Misto inexprimível de morbidezza e força, de energia e doçura, esta figura preciosíssima realizava para Sebastião em êxtase uma tão perfeita harmonia de conjunto, que ele ficou-a tomando sempre por modelo das boas proporções da figura humana.

Mas muitas outras estátuas do belo favorito de Adriano impressionaram fortemente o futuro barão de Lavos. Mesmo no Vaticano, mais duas ainda: uma figurando-o de deus egípcio, o olhar hirto e parado, a curva do lótus no sobrolho, o cabelo todo em anéis colados às fontes, paralelos; outra singelamente coroada de gramas e nas mãos as insígnias agrárias de Vertumno, fresca e robusta. Uma outra em Roma, no Capitólio, trazida da antiga villa de Adriano em Tivoli, representando o formoso escravo, que as águas do Nilo sepultaram, com o rosto repassado de melancolia, os olhos grandes e magistralmente desenhados, a cabeça também inclinada ligeiramente, e em torno da boca e da face esvoaçando uma perfeição de contorno ideal. No Louvre, uma com os atributos de Hércules, da mais altiva elegância; outra com os olhos de pedras finas e sobre as espáduas um manto de bronze, largamente panejado; e uma terceira, sedutora, com o largo chapéu, redondo e baixo, de Mercúrio, meia túnica deixando descoberto um braço soberbamente modelado, a perna cingida por botinas de coiro, a coxa inteiramente nua, opulenta e suave.

Várias figurações de Ganimedes tocaram-no igualmente, a saber: a encantadora estátua em mármore de Carrara, do Vaticano, achada em Óstia em 1800; o famoso Rapto de Ganimedes, de Rubens, no museu real de Madrid; o fresco de Carrache, em Roma; em Florença, a tela de Gabbiani. O mesmo com o célebre Aquiles, em mármore, do museu do Louvre, soberbo estudo do nu pertencente à época chamada do estilo sublime, e que passa por cópia de um trabalho de Alcamenes, o discípulo predileto de Fídias. O mesmo com os Narcisos, os Batilos, os Hermes, os Adónis, os Evangelistas, as Madalenas,as Fornarinas, — com os motivos mais humanamente plásticos de todas as religiões e de todos os tempos.

De tudo isto comprou quanta reprodução lhe apareceu. Voltou com o gosto educado, apurado, sábio, e com a sede dos largos prazeres ignorados a chamejar-lhe cada vez mais mordente nos grandes olhos negros. A estupidez pacata do nosso meio exacerbava-o, estimulava-lhe a fantasia. O que a contingência externa lhe não dava, D. Sebastião arrancava-o encarniçadamente a um trabalho desfibrinante de evocação interior. Criava, sonhava, concebia caprichos inverosímeis, que ora conseguia realizar a muito custo, ora se limitava a saborear, mercê de um longo dispêndio imaginativo, na solidão da sua alcova.

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