6 de março de 2013

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 13


Em 1860 morreu-lhe o pai. Ele era filho único e único representante daquele ramo da família. Tomou conta da casa, — uns quatro contos de renda, se tanto, — e continuou desperdiçando loucamente a mocidade em aventuras galantes, em pândegas, em devassidões imprevistas. Para mais, um desvio fisiológico, — uma diátese úrica que lhe espessava e abastardava o sangue, — dava-lhe uma facilidade simpática de adaptação a todas as vis aberrações da carne.

Um dia começou com ele a saciedade, o tédio. Acalmou, viu claro. Conheceu que, a continuar assim, ia entranhar-se, dissolver-se irremissivelmente na treva das ínfimas degradações, como um caminhante que deixa a estrada rútila de sol, lisa e direita, para entrar num emaranhamento negro de floresta. Teve medo. Lembrou-lhe então casar... Sorriu à ideia. Seria uma emoção nova; seria principalmente, com a sua imposição de deveres sacrossantos, um freio, uma norma séria e digna de viver. O casamento pois fascinou-o, como variante e como corretivo.

Ora, entre as famílias das suas relações, frequentava particularmente o barão a casa do Sr. Inácio Miguéis, antigo negociante de panos, vivendo anchamente do passivo de uma falência fraudulenta. Ele, a mulher e duas filhas casadoiras. Destas a mais velha, Elvira, não deixava de agradar ao barão. Irrequieta, nervosa, branca, pequenina, ressumava de todo o seu ser miudinho e frágil uma complexidade picante de mistério. Era o Desconhecido; era um problema vivo, — e delicioso problema! — a decifrar. Fez-lhe o barão a corte.

A rapariga no fundo não passava de uma burguesita imensamente leviana e sofrivelmente ignorante, extremosa mas fútil, não tendo da moral a compreensão mais estrita, e cultivando assiduamente por igual na janela do seu quarto os namoros e os amores-perfeitos. O natural era excelente, liso na intenção, apontando ao bem, simples, claro. Formada numa educação menos absurda que a lisboeta, podia ter dado uma mulher exemplar. Nem sensual, nem desequilibrada. Alma grande e inteligência estreita. O que queria era que a amassem, era ter que amar; porém na acanhada circuição do seu espírito este desejo não violava os limites postos ao amor legítimo pela religião e a lei. Assim, ela não namorava por vício, mas por cálculo, na ânsia de realizar perante Deus e os homens a sua inclinação natural. E no namorado não via nunca o macho, não apetecia o homem; delineava, futurava o marido. Casar era o seu sonho doirado; casar com um fidalgo, — a sua primeira aspiração de burguesa.
— Se este barão me quisesse!... Isso sim! Lembrava-se lá!... — Bem lhe tinha ela já feito a diligência. — Mas qual!
Por isso também, quando percebeu que o barão a requestava, ia estalando de alegria, coitadita. Foi naquela casa uma alegria doida... Breve, casaram, em S. Cristóvão, perto do palacete do barão.

Julgaram-se felizes nos primeiros tempos; mas, a pouco trecho, o encanto da novidade tinha quebrado, a etiologia moral do barão seguia fatal na sua escala deprimente. Veio-lhe a fome irresistível dos hábitos antigos. Recaiu neles, agora com todas as precauções tortuosas que o novo estado exigia. A mulher, à força de a ver sempre, ia-a esquecendo. O problema esperava a solução, — que lhe importava a ele! — Assim, o afastamento, a indiferença, o desgosto iam cavando entre os dois, cada vez mais largo e mais fundo... Não tinham filhos: — uma orquite dupla anulara no barão, quando solteiro, a faculdade de procriar. E agora, ao cabo apenas de três anos de vida em comum, ele, sentado ali junto da sua pequenina e apetitosa esposa, tinha frio, torcia-se, mirava confrangidamente, num misto de humilhação e de respeito, aquela cabecita luminosa e redonda, enquanto lhe dançava na imaginação o efebo que deixara há pouco no Passeio.

Deu uma hora no gabinete ao lado.
Ele então, erguendo-se:
— Vou-me deitar.
E a baronesa, toda de alma na leitura:
— Vai indo, que eu já vou.
O barão saiu pela porta do toitette, num bocejo arrastado, enquanto ela, depois de uma leve expiração de alívio, continuava interessadamente a ler.

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