18 de fevereiro de 2014

O Barão de Lavos - capítulo 3 - secção 14

CAPÍTULO III


No dia seguinte, ao almoço, um constrangimento acre molestava os dois esposos, instintivamente. O que quer que era de vagamente arreliador pairava. Uma turbação rebarbativa de desgosto, de mal-estar, de disputa suspensa ensombrava aquela atmosfera conjugal, na aparência tão calma. Cada um dos dois tinha o pensamento posto num desejo antípoda do do seu comensal; e por isso também cada um dos dois sentia que a tormenta se encastelava rápida e que, inevitavelmente, uma faísca de ódio havia de chispar ao encontro desses dois antagonismos.

Ambos contudo se empenhavam, mais por um sentimento de decoro doméstico, do que por uma razão egoísta de prudência, em retardar quanto possível a deflagração iminente. A baronesa, com o corpinho roliço e fresco regamboleando num roupão de caxemira cor de grão, enfeitado a renda creme, e a grossa trança castanha presa em torso negligente à nuca por um grande prego de níquel, transversal, ora mirava as unhas, ora dava pequeninas ordens ao criado de mesa, ora derivava o olhar num passeio alheado pela sala, toda no cuidado de evitar os olhos do barão. Este para evitar os olhos da baronesa achara recurso mais cómodo: ia lendo o Diário de Notícias, posto ao alto contra o centro de mesa, — quatro grifos rompantes de prata suportando uma túlipa de baccarat, muito elançada, em facetas de cujo bordo biselado em ponta se debruçavam, num parapeito fofo de violetas, as primeiras rosas de estação, colhidas no jardim.

O barão estava de fraque, vestido para sair. Mais de uma vez tentara travar conversa, sempre sem resultado. Primeiro, leves perguntas banais:
— Mandaste ao encadernador?
— Mandei. — respondeu ela, distraída.
— O correio não traria nada hoje?
— Pergunta ao João.
Daí a pouco:
— Sempre os Paradelas ontem...
Nada!
Após novo intervalo:
— Não estou hoje nada bem... Tive palpitações toda a noite. E este meu estômago...
A baronesa limitou-se a sublinhar com um risinho incrédulo de desdém.

Por fim, quando tomava o café, o barão assentou no jornal a ponta da faca, mantida entre o dedo maior e o indicador da mão direita, e exclamou muito familiar, a querer entrar com sol no diálogo:
— É boa esta!... Sempre impagável de tolice este jornal. Queres, ouvir?... — E leu alto, com um bom sorriso conciliador, mas sem fitar a esposa: — Diz hoje o luminária das Cartas do Estrangeiro que visitou em França o Pantheon, «edifício destinado a Santa Genoveva, patrona de Paris»!... e mais abaixo, falando do nosso ministro ali: «é um dos mais esclarecidos e honrados representantes que temos no estrangeiro, e cuja espécie fora bem útil reproduzir para honra do país»!... É boa, não, é? — comentou, rindo.
Porém, malévola, a baronesa:
— Que sensaboria!
— Achas?
— Decerto, — confirmou ela num giro de olhos azedo. — Nem sei para que te incomodas a ler-me isso... — E logo, na previsão do que ia passar-se, para o criado: — Vá almoçar.
— Cuidei que te interessasse... — aventurou o marido.
— Supões-me mais idiota do que sou.
— Ó filha, não é isso! — afagou o barão com a mais afetuosa bonomia. — Que te interessasse como episódio cómico, simplesmente, como assunto para um bocado de troça, para brincar, para rir.
— Bem! Não faltava mais nada. Agora chamas-me criança! — explodiu ela com vivacidade, enquanto arrastava para longe, num sacão de arremesso, a chávena de cujo chá bebia os últimos goles.

Desta vez o barão, posto em prova, afastou da mesa o tronco, alto e direito, e cravou na mulher um severo olhar de reprimenda. Mas ela, de cotovelo fincado sobre a toalha, franzir desdenhoso nos lábios, a mão cocegando a ponta da barba num jeitinho impertinente e raivoso, pôs-se a fitar com altiva insolência uma das rosetas do teto e a fustigar o parquet num bater de pé provocante. Uma trepidação elástica e felina corria-lhe o colo, os seios e a face rija e redonda, em cujas vénulas engrossadas se via a fremir e a subir um sangue roxo, irritado.

De repente, abate sobre o marido as pupilas, crispantes de desafio:
— Preciso sair hoje... Não me acompanhas?
— Logo vi!... ou eu não tivesse que fazer!... — respondeu com ímpeto o barão.
— Que marido tão condescendente, tão amável que eu tenho, santo Deus!... Nem de encomenda! — E depois de uma pausa, numa irritação crescente: — Para que me foi tirar a casa de meus pais?... Se me não amava, para que me privou do carinho dos meus? Para que me foi arrancar ao coração da minha gente, a minha verdadeira e única família, que nunca me contrariaram... sempre prontos a adivinhar-me as vontades, sempre felizes por me fazerem a vida cor-de-rosa?... Casou par conveniência, bem sei... para me tiranizar absurdamente! — E com lágrimas a bailarem-lhe na voz: — O senhor não procurou em mim uma doce e digna companheira, mas uma estúpida e dócil governanta! Não me quis para lhe alegrar a existência e entreter a alma, mas para lhe determinar o jantar e pregar os botões das ceroulas... Bonita vida!
— Elvira, não me impacientes! Não me estragues o almoço… Precisas de sair?... Manda recado a tua mãe ou a tua irmã.
— Não são minhas criadas!
— Nem eu!

E ergueu-se pálido, fulo, assentou com força o guardanapo sobre a mesa, foi tornar o sobretudo e o chapéu ao cabide do corredor, e saiu.


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