18 de fevereiro de 2014

O Barão de Lavos - capítulo 3 - secção 15

Hilares do barulho da contenda, os canários do lindo viveiro doirado tinham rompido numa chilreada escarninha.

A baronesa, depois de imobilizada três segundos num espasmo de cólera impotente, ergueu-se também de chofre e foi sepultar-se na chaise-longue do seu cantinho predileto, humilhada, esmagada, fria na epiderme, a chorar, a tremer. No primeiro momento nem deu bem conta dos sentimentos que a poleavam. A pobre criatura sentia só, — com que violência! — que a saída grosseira e brusca do barão lhe caíra na alma com todo o peso de uma afronta insanável, provocando urna dor vagamente mortal, indefinível, planturosa e cava como o bater de uma lápide fechando um túmulo.

Ele desfeiteara-a, insultara-a, atirara-a à margem como uma ponta de charuto, — eis o que era evidente, o que era essencial, o que a dilacerava... Por que motivo?... Não lhe importava, não o sabia; nem mesmo, que o quisesse, conseguiria talvez tentar sabê-lo. De ordinário incapaz de passear muito tempo a atenção sobre um mesmo assunto, a baronesita comprazia-se em acendrar até ao último exagero as consequências de uma emoção. Sobrava-lhe em coração o que lhe faltava em inteligência. Vinha-lhe de sentir muito e pensar pouco o seu adorável feitio de leviandade. Assim, toca a malucar: — O marido repelira-a, desprezara-a... que lhe importava o mais?... — E a torturada e voluntariosa burguesita contorcia-se na vergonha da afronta evidente. Aquela alvura leitosa de cútis, que a extrema regularidade da sua vida tingia habitualmente de cor-de-rosa, vincara-se, empanara-se, contraíra-se no engelhamento ranilhado e lívido de um pergaminho velho. As lágrimas gemiam gota a gota, como de um filtro, de cada aproximação das longas pestanas, que palhetazinhas de ouro incrustavam, microscópicas. E as mãos enrodilhavam e retesavam nervosamente o pequenino lenço de esguião e rendas, preso por uma das pontas entre os dentes raivosos.

Desprezada, humilhada! — Ela, cuja suprema ambição, cujo mais almo prazer, mais fervoroso anseio era amar, adorar, dedicar-se para ser por igual amada, adorada, servida num exclusivismo sagrado e ardente de mutuação perfeita... — Que alma ingénua! Como esta certeza fulminante vergastava cruel o seu modo feminino de sentir as coisas, como alanceava duramente o seu temperamento hiperestesiado de paixão!

Esquecia-lhe mesmo entrar em linha de conta, na liquidação do ultraje, com o ativo não pequeno das suas provocações. Não lhe acudia descontar, na ofensa do marido, a porção de violência e desgosto que a sua propositada maldade fizera supurar. Não considerava que o barão, conciliador, paciente, afável, se empenhara bastante em conjurar a borrasca, pelo seu caprichosinho azedo armada, e resolvida em próprio prejuízo. — Insultada, humilhada! — Não queria saber de mais.

Na sua frente, sobre a mesma mesinha baixa de charão, ficara aberto, da véspera, o romance lido com tanto ardor. A baronesa deu de acaso com os olhos nele; e então, confusamente, numa teimosia obscura de confronto, por um destes desvios absurdos mas triviais nos espíritos pouco reflexivos, começou a achar analogias entre a sua ridícula cena com o marido e aquele episódio sangrante de adultério... Ali havia por força uma tragédia latente. Iam no prólogo. Vinha encastelando-se a borrasca. Impossível harmonizarem-se... jogavam falso. — É um tirano. Não me compreende...

— Se ele já me não ama!? — pensou a meia voz, aterrada, num rodilhão de ciúme, enquanto os olhos se lhe secavam, muito abertos, a boca se lhe descerrava num pânico, e as mãos lhe caíam sobre o regaço pesadamente, com o lenço esfrangalhado entre os dedos finos.
Mas foi o sonho de um instante... Breve, uma confiança grande no marido, uma confiança ainda maior na própria juventude, acordaram-lhe um rebate de brio íntimo, deram-lhe uma tonificação alacre, chamaram-na à realidade. Clareou então um bom sorriso altivo no marfim do rosto macerado, e aos olhos, vivos como um chilreio de aves, afluíram de novo as lágrimas, pulverizadas, cristalinas, doces como um aguaceiro peneirado de sol, na primavera.

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