28 de agosto de 2012

O Barão de Lavos - capítulo 2 - secção 9

Era lógico. Derivava naturalmente da índole, da educação, das condições de ligação dos dois esta situação mortificante.

O barão garfava por enxertia duplamente bastarda em duas das mais antigas e ilustres famílias de Portugal. Assinava — D. Sebastião Pires de Castro e Noronha. O dom trazia-lhe origem dos Castros, carugento apelido castelhano, evo de oito séculos, que passara ao nosso país, ainda mero feudo leonense, por ocasião do casamento de D. Fernando, filho do rei de Portugal e Galiza, D. Garcia, com D. Maria Álvares, senhora da vila de Castro Xeris, e descendente de Laim Calvo, o afamado jurisconsulto. É de saber que este glorioso talo genealógico dos Castros, refolhou, em Espanha, nos condes de Lemos; e, entre nós, nos condes de Basto, de Mesquitela, de Monsanto e de Resende (primeiros almirantes-mores do reino), e nos senhores do Cadaval. Deu ainda tão preclara cepa da nossa horta heráldica esse lendário grelo da isenção e da honra, que foi o grande D. João de Castro. Mas a casa de Monsanto não era vergôntea legítima: apurou-se isto da larga contenda batida por D. Álvaro Pires de Castro, senhor das Alcáçovas, contra seu tio, também D. Álvaro Pires de Castro, senhor de Arraiolos. Contestava aquele a este o uso das armas direitas dos Castros, por ser uma degenerescência bastarda no bracejamento fidalgo da família. E o caso é que, desde então, tanto os condes de Arraiolos, como os Castros de Fornelos e os de Melgaço, ambos seus descendentes, deixaram de usar o escudo primeiro da casa, — treze arruelas de azul em campo de oiro, — passando a ter por divisa apenas seis arruelas, e em campo de prata.

Escarolavam nesse tempo do segredo tépido das alcovas para a bisbilhotice oficial dos símbolos brasonados as diferenciações no estalão moral das grandes famílias solarengas. Era o que podia haver de mais meticulosamente fútil e de mais superfluamente ingénuo. Mas era claro, ao menos. Sabia a gente com quem tratava. Não se tinha inventado ainda a carta de conselho para galardoar alcoviteiros e nobilitar ladrões.

Em tempos de D. João III, 1541, preparava-se em Lisboa, com destino à Índia, uma esquadrilha de cinco navios que devia comandar Martim Afonso de Sousa, o herói de quem a tradição refere que recebera de Gonçalo de Córdova a espada, de que nunca mais abriu mão. Fora ele nomeado sucessor de Estevão da Gama no governo dos nossos domínios asiáticos, e preparava-se-lhe um luzidíssimo cortejo de homens de algo. Queria-se honrar dignamente o benemérito guerreiro, cujo nome já então doiravam sobejamente altos feitos cometidos no Brasil, no mar das Índias, na ilha de Repelim, em Ceilão, na costa do Malabar. Um dos Castros de Monsanto, então na corte, homem de terras e de dinheiro, foi insinuado ao rei como devendo embarcar. O sombrio e fanático monarca não o via de feição. Surpreendera-o uma vez, à missa, rindo. Pouco depois, como tivessem chegado a Portugal os quatro primeiros padres da Companhia de Jesus, o desastrado Castro permitiu-se pôr em dúvida, na frente do rei e da nobreza, a austeridade e a pureza de intenções dos padres jesuítas. O soberano agastou-se. Para mais, três desses jesuítas, — e um deles era S. Francisco Xavier, — embarcavam já com rota ao Oriente na esquadrilha de Martim Afonso, para missionar. — Que fosse o Castro! Era quase certo que ao cabo dessa longa viagem na salutar companhia de tão santos varões, ele estaria convertido. — E o rei achou bom, indeclinável que o zombeteiro áulico saísse de Lisboa; não inquinasse ele de heresia a católica subserviência da corte de sua majestade fidelíssima. Grande obra de piedade — fazê-lo embarcar. — Que fosse!

Mas o pobre fidalgo era mole, doente, linfático, poltrão. Tinha um pavor invencível ao mar. Andava, demais, perdidamente enamorado por D. Branca de Noronha, servilheta, e, — dizia-se, — filha bastarda da casa dos Noronhas, — outra nobre família antiquíssima, prendendo nos reinos de Leão e de Castela, muito fundo, as raízes da sua estirpe. Correspondia-lhe por igual a formosa menina, — temperamento manso, resignado, sonhador, todo feito de passividade e modéstia, reclamando a calentura constante de uma forte proteção, afetuosa e discreta, que a envolvesse numa calmaria tépida de estufa, para viver. Uma noite, ausentes os Noronhas em sarau do Paço, propôs-lhe o amante fugir. Aceitou. E, dias depois, a fronte de ordinário torva de D. João III caliginava-se, furibunda, ao saber que o cortesão em desfavor, desprezando o mandado de embarque, se fora alcandorar, com uma nobre virgem raptada, na penhascosa e abrupta solidão do seu castelo de Monsanto.

Pensou em fazê-lo render-se, mandando-o cercar. Difícil. Tinha o Castro leais, valentes e numerosos servidores. Monsanto, — espessa coroa mural de um alto mamelão lascado a pino, — era de natureza inexpugnável. E depois, o rei na ocasião preocupava-se demasiado com a Reforma, contra a qual prorrompera, de colaboração com Carlos V, numa guerra implacável, e com a deflagração sinistra dos autos-de-fé. Depressa esqueceu o rebelde, em cujos braços morria, após dois breves anos de um fervoroso idílio, a sua dedicada e doce amante.

Desta romanesca mancebia porejou um filho, que vinha a ser o sexto avô do nosso barão de Lavos.

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